Além dos Livros

A Música de Uma Vida, de Andrei Makine (Eduardo Tognon)
Imagem: Eduardo Tognon

"Estava vazio de si mesmo, contaminado pela morte, expulso do próprio corpo por todos aqueles mortos que ele punha em sua pele, metendo-se na deles."

Em uma estação lotada, onde dezenas de pessoas aguardavam seus trens, presos em meio à espessa camada de neve deixada pelas implacáveis tempestades siberianas, um narrador anônimo observa os transeuntes com curiosidade. Enquanto espera seu trem para Moscou, ele imagina suas histórias e reflete sobre a condição de seu povo, agora reduzido, aos olhos do mundo, a uma única expressão: Homo sovieticus, termo cunhado pelo sociólogo e escritor Aleksandr Zinovyev.

É nesse cenário melancólico que o narrador conhece, por acaso, Aleksei Berg, um senhor que, pouco depois, senta-se ao seu lado em um trem e começa a contar sua história.

“(…) E, se de repente o alto-falante anunciasse com uma voz de aço o início de uma guerra, toda aquela massa se poria em movimento, pronta para viver essa guerra como se fosse normal, pronta para sofrer, sacrificar-se, com uma aceitação perfeitamente natural da fome, da morte ou da vida na lama daquela estação ferroviária, no frio das planícies que se estendem além dos trilhos.” (pp. 15–16) 

Na juventude, Aleksei sonhava com uma brilhante carreira musical, seguindo os passos dos pais. Seu primeiro concerto de piano estava marcado para os próximos dias, um marco que parecia ser o início de um futuro promissor. No entanto, esse sonho desmorona abruptamente quando, ao voltar para casa, descobre que seus pais haviam sido levados pela polícia stalinista, acusados de dissidência. Sem lar, sem família, sem qualquer rumo, Aleksei tem apenas uma opção: fugir para a casa de seus tios, em um vilarejo remoto da Ucrânia, sequer imaginando que, a partir daquele momento, sua identidade deixaria de existir.

Refugiado na casa dos tios, Aleksei passa dias escondido em um abrigo apertado, temendo ser descoberto e, consequentemente, condenar também aqueles que o acolheram. O país estava em guerra. Tropas alemãs avançavam impiedosamente sobre o território soviético.

“(…) Foi graças ao seu desaparecimento que, numa noite de dezembro, ele compreendeu que ninguém estava a salvo. Nem mesmo os vencedores. Nem mesmo os que tinham combatido corajosamente os inimigos do povo. Nem mesmo os filhos desses combatentes.” (p. 37) 

É através das frestas de seu esconderijo que ele testemunha o horror: a chegada dos soldados alemães e o massacre impiedoso contra os soviéticos. Quando o silêncio enfim se impõe sobre o campo de batalha, Aleksei emerge e encara o cenário devastador: corpos mutilados e ensanguentados por toda parte. A visão que deveria paralisá-lo, ao contrário, lhe impõe uma decisão, porque agora sabia que deveria substituir sua sensibilidade por uma dose pura de pragmatismo. Ele sabia que estava sendo procurado. Sabia que, para sobreviver, precisava desaparecer.

E então, ali, no meio dos cadáveres, Aleksei Berg deixa de existir. Escolhendo o corpo de um soldado soviético que lhe parecia fisicamente semelhante, ele veste suas roupas, toma seus documentos e assume sua identidade. Naquele instante, nasce Viktor Stepánovich. Seu passado se apaga, sua sobrevivência agora depende de sua agilidade no front.

“Estava vazio de si mesmo, contaminado pela morte, expulso do próprio corpo por todos aqueles mortos que ele punha em sua pele, metendo-se na deles. Falou ritmando os passos, querendo se encher do que havia sido antes…” (p. 49)

Arrastado pelo conflito, Aleksei — agora Viktor — luta em batalhas ferozes, vê seus companheiros serem mutilados e mortos, torna-se indiferente ao horror. A música, outrora sua essência, transforma-se em um eco distante, uma lembrança dolorosa de um tempo que já não lhe pertence. Sua visão de mundo se torna fria, desesperançosa. Todavia, mesmo quando tudo parece perdido, a música insiste em reaparecer. Ela voltará à sua vida inesperadamente, entrelaçada à doçura de um amor que há muito ele não sentia.

É nesse ponto que Makine demonstra sua força narrativa: não se trata apenas de uma história de sobrevivência, mas de reconstrução da sensibilidade humana em meio à desumanidade. A música não é apenas instrumento ou entretenimento, mas memória, registro de uma vida que insistiu em permanecer, mesmo quando o corpo e o mundo pareciam querer apagá-la. Viktor percebe que, apesar de ter abandonado Aleksei Berg, ainda carrega em si a essência daquele rapaz que sonhava, que sentia, que podia se emocionar.

“Aleksei parou perto do piano, deixou a mão cair sobre o teclado, escutou, baixou a tampa. A alegria de não sentir em si a presença do rapaz apaixonado por música foi bastante tranquilizadora. Olhou para a mão, aqueles dedos cobertos de cicatrizes, de arranhões, aquela palma com calos amarelados. A mão de outro homem. Pensou que, num livro, um homem na situação dele teria se precipitado para o piano, tocado se esquecendo de tudo, chorado talvez. Sorriu. Aquele pensamento, aquela ideia livresca, era provavelmente o único vínculo que ainda o ligava ao passado.” (p. 55) 

Makine nos apresenta, assim, um retrato sensível de uma época histórica brutal, mas também nos convida a refletir sobre a persistência da arte, da memória e da identidade. A escrita, delicada e intensa, faz com que o leitor sinta o frio da estação, o cheiro da pólvora nos campos de batalha, a tensão nas ruas ocupadas e, ao mesmo tempo, a suavidade de uma melodia capaz de iluminar os cantos mais sombrios da alma. A Música de Uma Vida não é apenas a narrativa de Viktor Stepánovich: é a história de todos aqueles que, em meio ao caos e à desesperança, encontraram na arte a única maneira de continuar existindo.

“Dizia consigo que devia haver nesta vida uma chave, um código para exprimir, numa linguagem breve e unívoca, toda a complexidade dessas tentativas, tão naturais e tão dolorosamente intrincadas, de viver e de amar.” (p. 78)

Edição usada para este artigo

A Música de uma Vida

Título original: 🇫🇷 La musique d’une vie

Andrei Makine (trad.: Eduardo Brandão)

ISBN: 85-359-0812-9 (versão impressa) 

Editora: Companhia das Letras

Publicação: 2006 (esta edição) / 2001 (original) 

90 páginas

A Música de uma Vida

Título original: 🇫🇷 La musique d’une vie

Andrei Makine (trad.: Eduardo Brandão)

ISBN: 85-359-0812-9 (versão impressa) 

Editora: Companhia das Letras

Publicação: 2006 (esta edição) / 2001 (original) 

90 páginas

Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin
Share on telegram
Share on email
Eduardo Tognon

Eduardo Tognon

Eduardo Tognon é diagramador de livros, professor na área de dados e redator no Além dos Livros. Adora tecnologia e literatura, e faz com que as duas coisas andem juntas.

MAIS DO ALÉM DOS LIVROS:

Além dos Livros
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.