“Heróis Demais”, de Laura Restrepo
“Heróis Demais”, de Laura Restrepo
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"(...) acho que não conseguia entender como se vive sem a ditadura, sem ter um inimigo pela frente a quem você deve destruir pra que não te destrua"
Mateo é um adolescente colombiano de dezesseis anos que, em meados dos anos 90, mora com a mãe, Lorenza, em Bogotá. Apesar de possuírem uma relação relativamente saudável, às vezes emergem questões conflituosas entre os dois, principalmente nos momentos em que Mateo decide questionar a mãe sobre o passado dela e de seu pai, Ramón, com quem Mateo só teve contato nos primeiros três anos de vida.
Em certo momento Lorenza decide atender a um pedido do filho: levá-lo até a Argentina — especificamente a Buenos Aires — para que ele procure por seu pai, para que tente preencher essa lacuna identitária que lhe faltava. Hospedados em hotéis e caminhando longamente pelas ruas, bares e restaurantes da cidade, os dois travam conversas difíceis, divergentes, mas também humoradas e afáveis. Durante essa narrativa, que mistura diálogos casuais e memórias profundas, Mateo conhece a história dos pais, antigos militantes da resistência na época da ditadura militar argentina, momento conhecido como Guerra Suja (1976–1983).
Durante esse período, Lorenza, colombiana, havia sido enviada a Buenos Aires para atuar na resistência pacífica ao governo militar, cumprindo missões secretas e ajudando nos interesses do partido ao qual era, de certa forma, afiliada. Nos primeiros dias de sua primeira missão ela conhece Ramón, argentino, importante membro do grupo, com o qual, posteriormente, terá uma relação amorosa, que ocasionará o nascimento de Mateo.
“Era tudo uma atrocidade, começando pelo próprio nome, desaparecidos. Em vez de sequestrados, ou torturados, ou assassinados, foram batizados como desaparecidos, como se por si sós tivessem evaporado, por culpa de ninguém, ou talvez por culpa deles mesmos, de sua própria natureza volátil. A ditadura primeiro desaparecia com as pessoas e depois negava que tivessem desaparecido, e assim desaparecia até com os desaparecidos.” (p. 115)

Com o fim da ditadura, nos anos 80, o casal decide sair da Argentina para viver pacificamente na Colômbia, mas Ramón apresenta diversos problemas de adaptação e a relação dos dois começa a se desgastar e a ruir aos poucos. Com o fim do relacionamento, Ramón, em um ato bastante calculado, decide sequestrar o próprio filho, então com três anos, o que causa uma drástica ruptura entre ele e Lorenza, e também um dos momentos mais angustiantes da vida dela, que precisa lutar contra o ímpeto de enfrentar o ex-marido.
Todos os detalhes da história dos dois são repassados de Lorenza a Mateo em diversos momentos dessa viagem. Nesses diálogos, o questionamento do filho em relação à história dos pais recebe, como resposta, a retratação do passado político e afetivo de Ramón, quase idílico, por assim dizer, mas não é dessa forma que Mateo vê a figura de seu genitor; tudo que o menino deseja é encontrar uma identidade mais humana de seu pai. Enquanto Lorenza descreve um Ramón heroico, Mateo apenas procura um pai de carne e osso, não necessariamente atrelado à sua luta na época da ditadura.
“Bem, era mais sério ainda, acho que não conseguia entender como se vive sem a ditadura, sem ter um inimigo pela frente a quem você deve destruir pra que não te destrua.” (p. 11)
Podemos notar, nessas interações, um conflito de gerações. Lorenza parece ser insistente em pintar uma figura homérica de Ramón — e também de si mesma e do próprio movimento de resistência —, enquanto Mateo questiona os limites do heroísmo e da militância. Ele faz parte de uma geração que herdou as consequências da ditadura sem ter participado dela, que carrega o reflexo das memórias de seus pais em suas próprias ações, visto que a repressão política havia gerado impactos duradouros na intimidade dos lares, nas relações familiares. E talvez esses impactos tenham direcionado a narrativa de Lorenza sem que ela percebesse que, para Mateo, aquilo era apenas uma memória da qual ele não participou, uma memória sem vínculo contextual.
“Nada a fazer, não era possível desfazer o malfeito, nenhum dos dois estava disposto a romper pelo outro lado, de modo que vieram meses de ausência e agonia ansiosa. De dor de estômago, de coração, de cabeça: o castigo desmedido que é o desamor, essa pequena morte.” (p. 155)
Heróis Demais retrata, sobretudo, o duelo entre a memória individual e a memória coletiva, fazendo subir à superfície uma questão importante desse período da história argentina: teria valido a pena o sacrifício dessa quantidade demasiada de heróis? Se sim, a que custo? Talvez esse custo tenha sido válido para Lorenza, mas desproporcional aos olhos de Mateo. Se não fosse por essa vida de seus pais, sua própria teria sido muito diferente?
Este livro, escrito em uma linguagem leve e coloquial, também carrega marcas da própria autora: Laura Restrepo participou dos movimentos de resistência da época da ditadura argentina. Apesar do aspecto ficcional da obra, ela é claramente baseada em algumas vivências de Laura, que nos fornece um retrato autobiográfico e contextual bastante detalhado. As repressões, as mortes e os desaparecimentos daquele período também se misturam com a forma crua e realista de narrar a maternidade, depositada em Lorenza pela primeira vez no momento de dar à luz seu filho em uma época sangrenta, mas também posteriormente, pela segunda vez, ao lidar com um filho adolescente afetado pelo vazio provocado pela ausência de memórias do pai.
“Até então não soubera bem o que era o desespero. (…) Susto sim, e adrenalina aos borbotões, taquicardia também, vertigem da aventura, tudo isso. Mas medo não. Medo, o que se chama medo, essa sombra do inimigo que invade a gente e vai nos derrotando por dentro, pouco a pouco, isso não tinha sentido. Até que nasceu Mateo.” (p. 210)
Edição usada para este artigo
Heróis Demais
Título original: Demasiados Héroes
Laura Restrepo (trad.: Ernani Ssó)
ISBN: 978-85-359-1864-9 (versão impressa)
Editora: Companhia das Letras
Publicação: 2011 (esta edição) / 2009 (original)
236 páginas
Heróis Demais
Título original: Demasiados Héroes
Laura Restrepo (trad.: Ernani Ssó)
ISBN: 978-85-359-1864-9 (versão impressa)
Editora: Companhia das Letras
Publicação: 2011 (esta edição) / 2009 (original)
236 páginas
Eduardo Tognon
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